Como eu vi Jesus em God of War
Em 12 de dezembro de 2023, os fãs da franquia God of War foram presenteados com uma DLC chamada God of War: Valhalla, para o Ragnarok. Essa expansão carrega o peso de ser o ápice da redenção de Kratos, protagonista da franquia. Ele é convidado a Valhalla, onde precisa dominar o próprio passado para chegar ao futuro que o espera.
Apenas para relembrar, ou para introduzir aos que não estão habituados, vamos falar um pouco sobre God of War. Iniciada em 2005, a franquia de jogos da Sony conta a história de Kratos, um general espartano que desejava glória acima de tudo. Certa vez, vendeu sua alma ao deus da guerra grego, Ares. Após isso, sua vida virou de cabeça para baixo, e Kratos foi usado para ceifar inúmeras vidas, incluindo a de sua própria família. Desde então, o espartano buscou vingança, destronou ares e se tornou o novo deus da guerra. Ele destruiu e perdeu tudo que conhecia. Depois, peregrinou até os reinos nórdicos a procura de uma nova vida, cheia de arrependimento e renascimento.
Na DLC Valhalla, após encarar vários desafios e verdades acerca de seu passado, somos confrontados com a cena que, para mim, é a mais emocionante dessa saga inteira, se não de todos os jogos que já joguei. Kratos dá de cara consigo mesmo, do passado, sentado em seu antigo trono de deus da guerra. Você já imaginou alguma vez como seria poder olhar para si dessa forma e dizer qualquer coisa? Como seria sua abordagem? Muitos tendem a responder "Eu me acusaria" ou "Isso daria uma briga". Mas e se você decidir usar a compaixão e se ver da forma que Cristo vê você? Kratos inicia uma conversa consigo mesmo.
O que eu posso te dizer? Eu lembro da sensação de tomar o trono. O que significou, e o que não significou. Um deus da guerra, da dor, do sofrimento, da destruição. [...] Eu busco uma redenção que eu sei que não mereço. O que isso me torna? Um deus dos tolos. Um deus da... esperança.
Engraçado que, por mais que essa obra não seja destinada à fé cristã, é muito relacionável com nossa caminhada. Como está escrito em Romanos 3:23-24, "Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus." Kratos teve um passado marcado pelo sangue, medo e dor. Mas a busca por cura, mudança e renascimento o trouxe a refletir, e se ver como alguém que, por mais que esteja ferido e tenha ferido, pode ser melhor.
Lembremos do apóstolo Paulo, conhecido por perseguir cristãos e aprovar a morte de Estêvão (At 7:58), enquanto ainda carregava a identidade de Saulo de Tarso. A mudança e conversão de Paulo não foi através de merecimento, mas da graça que o alcançou (At 9:1-9). É muito difícil para nós, pessoas falhas, não voltar aos velhos hábitos. Como deve ter sido para ele? Como deve ser para você, ou para mim? No diálogo de Kratos, vemos uma reflexão parecida.
Você perdeu tudo, e todos. E se tornou... Não existe perdão para você. Você escolheu... Eu escolhi. E agora, será que eu, esse mesmo homem, devo aceitar, tomar, proclamar, liderar, me colocar a serviço? [...] Se eu perder tudo e todos, ainda vai restar alguma coisa aqui dentro para que eu não vire você? Eu não sei. Mas eu tenho esperança.
É lindo viver o novo de Deus enquanto estamos bem e seguros. Somos perdoados e lavados de nossas iniquidades, livres de nosso medo e das prisões da nossa mente. Mas será que conseguiríamos continuar na caminhada se perdêssemos tudo? Acredito que a resposta de Kratos se encaixa bem. Não há como saber, mas temos esperança. Nossa esperança que está alicerçada na fé, no pulsar do coração do Criador. Ele não nos vê apenas como aqueles que foram transformados, mas como seus filhos amados.
Entender que somos amados é a essência do Evangelho. Você é amado(a), não interessa quem seja, ou pelo que passou. Sempre há espaço para mudança e renovo, sempre há um coração cheio de amor te esperando para reescrever a sua história: "Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas" (2Co 5:17).
Kratos encerra seu monólogo de forma impactante:
Você é cruel, arrogante, e egoísta. Mas você é mais do que isso. Você sempre foi muito mais do que os outros viam. Você é mais do que isso.
A cena se encerra com Kratos se vendo diante de seu trono. Não mais glorioso ou foleado a ouro. Um trono de pedra, quebrado e velho, um símbolo de humildade e rendição. Ele toma seu lugar, e se permite ser abraçado pelo perdão. Despidos da exaltação do "eu" e com um coração quebrantado, somos chamados a receber o abraço daquele que sofreu em nosso lugar. Está escrito: "Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó nação de Israel" (Jr 18:6). Deus nos quebra, nos restaura, nos perdoa.
God of War não é uma obra cristã, de fato. Se passa entre mitologia grega e nórdica. Mas Cristo fala através de qualquer coisa conosco. Basta um coração aberto a Ele. Somos convidados todos os dias para mudar de atitude, focar Nele e nos permitirmos ser transformados por essa infinita graça. Por mais que as quedas marquem nossa história, maior é o amor que nos acolhe como filhos, nos tira da lama e troca a vergonha por honra.
E você, conseguiria se olhar hoje no espelho e se enxergar com os olhos de Cristo?
Fonte da cena: https://www.youtube.com/watch?v=FWmG21LJD3w
Créditos ao canal Ryo GOD, que postou a cena no YouTube
Comentários
Postar um comentário